Essa matéria foi publicada ontem, 31 de maio, no Estado de Minas. Entre outras coisas, deixa claro que o aborto é a quarta causa de morte materna no país e que as mulheres do norte do Brasil são as que mais sofrem com a prática ilegal. Clique abaixo para ler a matéria.
Brasil registra 1 milhão de abortos por ano
Estudo mostra que mulheres pobres, jovens e nordestinas são as mais vulneráveis à prática ilegal. SUS registrou, em 2006, mais de 230,5 mil internações, a um custo de quase R$ 33,7 milhões
Gervásio Baptista/ABr
Brasília – As mulheres pobres, jovens e nordestinas são mais vulneráveis aos abortos inseguros no Brasil, que registrou, ano passado, 230.523 internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – quase 700 por dia – para o tratamento de complicações, ao custo total de quase R$ 33,7 milhões. Já as 2.068 internações relativas às práticas permitidas por lei (casos de risco de morte para a mãe e de gravidez resultante de estupro) custaram ao SUS R$ 302,8 mil. É o que mostra o relatório Morte e negação: abortamento inseguro e pobreza, divulgado ontem pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF, na siga em inglês), entidade que atua em 150 países. De acordo com a IPPF, no país ocorrem 1 milhão de interrupções voluntárias e clandestinas da gravidez por ano.
O estudo constata que a média brasileira, em 2006, foi de 2,07 abortos induzidos por grupo de 100 mulheres. O problema é mais grave no Nordeste, onde a taxa é de 2,73 para cada grupo de 100 grávidas. A Região Sul foi a que apresentou a menor taxa, de 1,28 por 100 mulheres. O relatório caracteriza o Nordeste como uma das regiões de menor poder econômico, onde as mulheres têm menos acesso aos serviços de saúde e que concentra as maiores taxas de analfabetismo, de 18%.
Para a diretora da IPPF, Carmem Barroso, o número elevado de abortos no Brasil é sobretudo um problema socioeconômico. “O Nordeste é a região mais pobre do Brasil.Nela, as mulheres têm menos acesso à informação, menos acesso aos meios de evitar uma gravidez. Portanto, elas se vêem desesperadas com a gravidez indesejada e recorrem ao aborto em maior número”, afirmou a diretora, durante a apresentação do relatório.
Segundo ela, outro fator de preocupação é que as brasileiras engravidam cada vez mais cedo, o que aumenta o número de abortos entre meninas e adolescentes. De acordo com o estudo, em 2005, foram registrados 2.781 atendimentos pelo SUS de meninas de 10 a 14 anos para tratamento de complicações pós-aborto. Entre as mulheres de 15 a 19 anos, houve 46.504 atendimentos.
A entidade calculou a ocorrência de um caso de aborto em cada grupo de 138 adolescentes, na Região Norte, contra um em 318 jovens na Região Sul. “As meninas de 10 a 14 anos são as que têm menos informações e menos recursos para evitar uma gravidez e se submeter a um aborto mais seguro”, explicou Carmem, acrescentando que a interrupção da gravidez é um problema coletivo e não individual.
MORTES Os abortos clandestinos são a quarta causa de morte materna no Brasil, segundo o estudo, matando de 180 a 360 mulheres por ano, informou a ex-coordenadora de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde Maria José Araújo. Ao comentar o fato de o Brasil concentrar, no máximo, 360 dos 70 mil óbitos mundiais causados por tentativas de aborto clandestino no mundo, Carmem afirmou que nenhuma mulher morreria ao abortar, caso tivesse acesso a métodos seguros. “Uma morte materna já é demais, porque seria totalmente evitável, se fossem adotadas políticas adequadas. No mundo industrializado, não existem mortes maternas. Em condições seguras, não morreria nenhuma mulher. A diferença é drástica, brutal, de zero para 70 mil.”
Carmem disse ser “fã de carteirinha” do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que propôs a discussão pública sobre a realização de plesbiscito no país sobre a legalização ou não da prática. Para o ministro, o debate deve considerar que o assunto é de saúde pública. Ela elogiou a iniciativa de aumentar o acesso a métodos anticoncepcionais, mas criticou a falta de divulgação sobre o uso e os efeitos da pílula do dia seguinte.
Para a diretora da IPPF, a Igreja Católica tem mais influência sobre o debate público do que sobre a prática do aborto entre as mulheres católicas. Carmem afirmou também que a proibição do aborto e a conseqüente falta de serviços de interrupção de gravidez pelo SUS não afetam a vida particular dos parlamentares brasileiros e de suas famílias, uma vez que são pessoas de maior poder aquisitivo e têm acesso a clinicas particulares.
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